Páginas de recordação
boemia e experiência urbana em três crônicas de Gonzaga Duque
DOI:
https://doi.org/10.17851/2358-9787.31.1.248-267Palavras-chave:
Gonzaga Duque, boemia, reforma urbana, crônicaResumo
Inspirada na fantasia parisiense, a boemia carioca finissecular ansiava por formar um grupo à parte da estrutura dominante e assim produzir uma arte livre de convenções (BOURDIEU, 1996). Integrante da roda boêmia da década de 1890, Gonzaga Duque não apenas partilhou desses sonhos, mas assistiu igualmente à sua derrocada. Tal experiência, por sua vez, foi registrada na produção literária do autor. Logo, a fim de analisar a representação do cenáculo boêmio de que Duque fez parte, este trabalho propõe um estudo de três crônicas publicadas na revista Kosmos, em 1908, a saber: “No tempo da Gazetinha”, “Crônica de saudade” e “O cabaret da Ivone”. Apesar de a crônica ser comumente conhecida por captar instantes efêmeros do presente, Gonzaga Duque se vale desse gênero para rememorar o passado. Na contramão da veloz modernização, o autor se volta para a cidade do Rio de Janeiro antes da reforma urbana de Pereira Passos. Não por acaso, alguns dos lugares que desapareceram com as obras do prefeito foram decisivos para a vivência boêmia. Nesse sentido, ao resgatar a memória desses espaços urbanos, as crônicas aqui analisadas evocam com certa nostalgia um ideal boêmio agora fracassado. Ao registrar o perecimento da ilusão de outrora, o cronista, já próximo da morte, acaba por testemunhar a própria decadência.
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